A impermanência das coisas
Tudo é impermanente. Aprendi isso no Budismo, há muito tempo atrás. Depois, ouvi essa frase em outras fontes... Mas sempre com a mesma ideia de que nada dura para sempre. Nada.
Isso pode parecer pessimista, num primeiro momento. Por outro lado, se observamos isso de perto, nossa percepção muda. Começamos a dar muito mais valor a cada pequena coisa em nossa vida, a cada encontro, a cada pessoa que cruza nosso caminho.
Mas, para realmente integrar essa ideia, para que ela não continue como uma mera ideia dentro do nosso ser racional, é preciso vivenciá-la. Cada um faz a sua maneira, e creio que esse momento de pandemia em que vivemos tem trazido de forma escancarada a questão da impermanência.
Vivenciei a impermanência há mais tempo, quando estava me preparando para a escalada do Cho Oyu, uma montanha de mais de 8.000 metros. Essas montanhas um tanto mais arriscadas, por conta da altitude extrema, entre outras coisas. Foram muitos meses de preparo físico e também de situações inusitadas. Por exemplo, tive que assinar um termo onde eu optava sobre o que seria feito com meu corpo, no caso de minha morte. Depois, ainda tive que explicar a minha família sobre minha opção: meu corpo ficaria na montanha, caso eu morresse. Inevitavelmente, comecei a pensar na possibilidade de minha morte, na possibilidade de não voltar mais para casa, de não ver as pessoas que me são caras. E isso mudou a forma de eu valorizar tudo isso. Me lembro que, logo depois, foi Dia das Mães e minha irmã chamou a mim e minha mãe para irmos almoçar com ela em São Paulo. Em outro momento, eu iria entrar no modo “preguiça de viajar” até São Paulo, e deixaria para o outro ano. Mas, de repente, poderia não ter outro ano! Assim, fomos almoçar com ela e foi super bacana... aproveitamos cada momento, de uma forma especial. Pelo menos, para mim. Alguns meses depois eu embarcaria para o Nepal, para essa escalada e voltaria, feliz em ter feito essa montanha dos meus sonhos.
Comecei a prestar mais atenção, depois disso, à questão da impermanência. Na verdade, ela está ai bem debaixo do nosso nariz. É uma ilusão enorme acharmos que nossa agenda do dia, ou da semana, vai se cumprir como planejado. Pode ser que algo aconteça no caminho do trabalho e eu não chegue. Etc., etc., etc.... Pense em todas as coisas que já aconteceram a você, por exemplo, e o tiraram do seu planejamento. Mas insistimos nessa ilusão de controle, de planejamento.
Creio que a pandemia trouxe essas questões, do não controle e da impermanência, de forma muito clara. Todos tivemos, em maior ou menor grau, que repensar como tocar a vida e em muitos casos, usar da criatividade.
Eu espero que essa fase tão difícil que estamos passando deixe bons aprendizados e que a impermanência, o real entendimento dela, nos deixe mais compassivos e respeitosos, com os outros, com o planeta, e conosco mesmo. Que possamos perceber a importância de cada coisa e pessoa. Num mundo onde ainda impera o digital, que possamos levantar os olhos e ver o rela, o que verdadeiramente importa.
Bons ventos!

parece que a unica permanecia é a impermanecia.......adorei essa história do Nepal, que incrivel qe deve ter sido essa experiencia :)
ResponderExcluirA compreensão da impermanência foi um divisor de águas pra mim. Parece que as coisas ganham mais sentido com esse entendimento. Parece simples, mas é tão profundo a gente perceber que tudo passa, tudo é transitório. O que é bom passar, o que é ruim também.
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