A escalada da Deusa Turquesa
ESCALANDO O CHO OYU – A DEUSA TURQUESA
“Um dia é preciso parar de sonhar, e partir”
Amyr Klink
Há muitos e muitos anos, li um livro – All 14 eighthousanders – de
Reinhold Messner, sobre sua escalada de todas as montanhas com mais de 8.000m.
Me lembro de ter ficado deslumbrada com aquele mundo de neve, gelo, botas,
crampons e falta de oxigênio. Ao mesmo tempo, achei que aquilo era um sonho
distante... na época, eu morava em Analândia, interior de São Paulo e minha
realidade era terminar meu mestrado e escalar em rocha, no Cuscuzeiro.
Creio que a escalada do Cho Oyu começou lá, naquele ponto da minha vida.
Não que eu soubesse que um dia escalaria uma dessas montanhas, mas creio que o
sonho, ainda que aparentemente impossível, havia se criado em minha mente.
A APROXIMAÇÃO
A escalada do Cho Oyu tem algumas peculiaridades. Primeiro, todos os
acampamentos são muito altos. Ter o acampamento base a 5.700m é difícil! Nessa
altitude (mais alto que o Mt. Elbrus na Rússia, para se ter uma idéia...) nosso
corpo nunca descansa e nunca estamos 100% aclimatados. Outra peculiaridade é
que vamos de carro por um longo
trecho, de Katmandu no Nepal até o chamado
Acampamento Base Chinês (no Tibet / China). Como ganhamos altitude muito
rápido, temos que parar no caminho em algumas cidades tibetanas (ou chinesas) e
passar nelas alguns dias, para fazer caminhadas de aclimatação. A partir do
Acampamento Base Chinês, onde passamos 4 noites (mais caminhadas de
aclimatação), seguimos finalmente caminhando rumo ao Acampamento Base do Cho
Oyu. Paramos num acampamento intermediário e somente no dia seguinte é que
chegamos no Acampamento Base do Cho Oyu, a 5.700m, que seria nossa “casa” no
próximo mês.
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| Tingri com Cho Oyu ao fundo |
A caminhada até o Acampamento Base do Cho Oyu começa por uma estrada de
terra e depois de algumas horas finalmente entramos numa trilha em meio à moraina
lateral do glaciar que desce das montanhas. Sinto finalmente a sensação de
estar “na montanha”. A paisagem muda radicalmente, os picos estão cada vez mais
próximos, podemos finalmente ver o glaciar e o famoso Nangpa La – o passo por
onde os mercadores tibetanos seguiam com destino ao Nepal. Hoje em dia essa
passagem é proibida pelo governo chinês.
Quando chegamos, toda a estrutura de nosso acampamento já está montada:
cozinha, barracas, barraca refeitório, barracas banheiro, barraca chuveiro.
Somos ao todo 11 escaladores, 6 sherpas, um cozinheiro, um assistente de
cozinha e 2 guias.
ACAMPAMENTO BASE
Na escalada de alta montanha, passamos muito tempo no acampamento base.
Isso porque, no geral, para cada dia que passamos na montanha temos que voltar
e descansar pelo menos o mesmo número de dias no base.
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| Campo base |
O campo base acaba sendo nossa “casa” na montanha. É lá onde conseguimos
dormir melhor, comer “comida de verdade” (e não só snacks e comida
liofilizada), onde conseguimos tomar um banho, lavar roupas e outras coisas
cotidianas.
Lá, os dias seguem mais preguiçosos. Apesar de sempre acordarmos cedo,
em geral o dia segue relax. Sempre arrumamos algo pra fazer... alguns preferem
ficar na barraca lendo ou assistindo um filme (no computador, ipad, iphone...),
outros vão fazer visitas às outras expedições que tb estão no campo base,
outros jogam baralho. Cada um tem a sua barraca, o que é um luxo!
A ESCALADA
A escalada começa com o Puja, a cerimônia de oferenda aos deuses das
montanhas.
Ninguém sobe a montanha antes do Puja, principalmente os sherpas.
Nosso Puja foi num dia de muito frio e neve e demorou aproximadamente 3 horas.
Eram 15 divindades e por isso demorou tanto. No fim, todos recebem um punhado
de tsampa, um tipo de farinha, que jogamos uns nos outros... ficamos com os
cabelos e rostos brancos, o que simboliza a chegada da idade... e desejamos
“long life – vida longa” uns aos outros. Todos ficam de certa forma
emocionados. Para mim, que sempre ouvira falar no Puja, fazer parte dessa
cerimônia foi bastante especial.
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| Puja |
A escalada é feita em ciclos. Para o Cho Oyu, tivemos 2 ciclos de
aclimatação e depois o ciclo do cume.
No primeiro ciclo, o objetivo é chegar no campo 1, a 6.400m. O caminho é
pela moraina, um misto de pedra e gelo. Depois de algumas horas, chegamos na
parte final com uma inclinação bem forte para chegar no campo 1.
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| Caminho pela moraina |
Eu já estava andando devagar pois senti que minha energia não estava
100%. Mas estava num ritmo razoável. Fiz a besteira de não comer nem beber o
suficiente durante a caminhada pelas pedras... mesmo com experiência em
montanha e sabendo que eu não podia fazer isso. A falta de oxigênio tira muito
o apetite e a vontade de beber água. Assim, era preciso lembrar de comer e
beber, e forçar um tanto a barra para isso. Mas acabei não fazendo, já que não
recebi os “sinais” do corpo (sede e fome) e acabei deixando passar. Quando
comecei a andar nessa parte mais inclinada, comecei a me sentir extremamente
cansada. Meu ritmo diminuiu muito e um dos guias, Peter, acabou ficando comigo
para trás. Da metade da subida para cima, já tinha neve e acabamos colocando
botas, crampons e usando o ice axe. Me lembro de estar concentrada totalmente
nos movimentos e na minha respiração – e para cada passo precisava respirar
umas 4 vezes. Só pensava que estava perto e que tinha que chegar no campo 1.
Não pensava em mais nada. Apenas sabia que esse, até então, esse estava sendo o
dia mais duro em minha vida de escaladora.
Quando finalmente cheguei, sentei na neve sem nem tirar a mochila. Minha
companheira de barraca, a alemã Heidi (muito forte e experiente, já havia
escalado o Everest em 2012) percebeu meu estado e agilizou várias coisas para
mim: pegou minha mochila e jogou dentro da barraca, me ajudou a desempacotar
várias coisas, me deu algo para comer e encheu meu thermarest (colchonete
inflável). Assim, pude entrar na barraca e finalmente descansar. Comecei a me
hidratar e a comer o máximo que eu podia, para tentar repor minhas energias.
Durante a noite tive uma dor de cabeça muito forte, um dos sintomas do
Mal de Altitude. Isso pode acontecer e não é um grande problema, desde que o
quadro permaneça dessa forma. Apenas o desconforto é muito grande... Mas no dia
seguinte já estava me sentindo bem e fizemos uma caminhada de aclimatação.
Fomos até a base do ice cliff, uma parede vertical de neve e gelo que fica já
na subida para o campo 2. Fomos até onde as cordas já haviam sido colocadas
pelos sherpas. Ficamos lá por um tempo e voltamos ao campo 1 para a segunda
noite nessa altitude. Dormi bem e no dia seguinte voltamos mais uma vez ao
nosso acampamento base.
Chegamos lá, felizes (afinal para nós era como se fosse um hotel 5
estrelas...) e de repente percebi uma movimentação estranha, principalmente
entre os sherpas que estavam lá e Mike, o guia principal. Havia acontecido uma
avalanche, no trecho do ice cliff, onde os sherpas estavam trabalhando na
fixação da cordas. As informações não chegavam com precisão, o que deixava
todos bastante apreensivos... não havia resposta pelo rádio. Depois de uns 30
minutos, conseguimos finalmente ter alguma notícia concreta: um dos sherpas da
Adventure Consultants estava guiando a cordada e uma placa de neve se descolou,
vindo para cima dele. O nosso sherpa, Karma Rita, estava dando segurança. O
primeiro levou uma pancada mais séria na cabeça e Karma Rita teve um corte feio
no dedo, e machucou o joelho e a cabeça – apenas superficialmente. Foi um
corre-corre dos sherpas para subir ao campo 1 naquela tarde, para trazer os
dois machucados. Esses seres humanos fora do comum conseguem subir em 1h20min o
que nós, meros mortais, fazemos em 4 ou 5 horas. Assim, no começo da noite
vimos Karma Rita chegar no acampamento. Ele estava com uma expressão de medo no
rosto, com a mão toda enfaixada e muitos ajudando ele a andar. Todos entraram
na barraca depósito com Mike e Peter e lá ficaram. Peter, como é enfermeiro,
cuidou dos ferimentos e assim o sherpa não precisou voltar a Katmandu. Depois
recebemos a notícia de que o sherpa da Adventure Consultants, que seguiu para
Katmandu para os devidos cuidados médicos, estava bem. Respiramos aliviados por
saber que, no fim, tudo havia acabado bem.
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| A equipe: escaladores e guias |
Passamos três dias no acampamento base, para recarregar nossas energias
de novo. O cozinheiro da expedição , Kaji, era ótimo! Conseguia preparar desde
pizza a dal bhat (prato típico nepalês: arroz, lentilhas e legumes no curry)
maravilhosamente bem. Assim, sempre que voltamos ao base, aproveitamos para
comer bem. Nos campos altos, é praticamente impossível repor toda a energia
gasta durante a escalada. Primeiro porque o gasto calórico é muito alto, e
depois porque realmente não temos apetite. Comer é sempre uma preocupação lá em
cima, mas conseguir comer é que é o problema... No base também dormimos bem
melhor, o que é fundamental para o corpo. Nesses dias no base, uma das
atividades foi fazer um teste com as máscaras de oxigênio e aprendemos a lidar
com os cilindros e reguladores.
O tempo estava bom, o que nos permitiu entrar na montanha para o segundo
ciclo de aclimatação. O objetivo era passar uma noite no campo 1, uma noite do
campo 2 (7.200m), voltar a dormir no 1 e descer ao campo base. Desta forma,
estaríamos aclimatados a essa altitude e preparados para o ciclo do cume.
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| Seguindo para C2. C1 ao fundo |
Havia, nas previsões de tempo, uma tempestade forte se aproximando. Sabíamos
que não chegaria enquanto durasse este segundo ciclo de aclimatação, mas a
previsão era que viria logo depois desse ciclo. Por essa razão, algumas
expedições optaram por fazer o ataque ao cume já neste segundo ciclo. Já nossos
guias decidiram fazer como o planejado – segundo ciclo e só depois o ciclo de
cume.
Assim, no dia 24 de setembro seguimos novamente rumo à montanha. A
caminhada ao campo 1, pela moraina, era sempre o pior trecho, o mais chato de
passar. Mas fomos bem mais rápidos que no ciclo anterior e em aproximadamente 4
horas estávamos no campo 1. Me sentia super bem e tive uma boa noite de sono.
No outro dia, seguimos ao campo 2. Esse trecho da escalada era um dos mais
aguardados, pois sabíamos que havia uma parte mais difícil devido à inclinação
quase vertical, o chamado ice cliff. Foi ai que havia acontecido a avalanche,
alguns dias antes, quando os sherpas fixavam as cordas. Mas, no fim, eles
abriram a rota de subida contornando pelo outro lado e evitando assim o trecho
mais suscetível aos deslizamentos.
Toda a subida ao campo 2 teve uma inclinação mais pesada do que
esperávamos. Saindo do campo 1 a subida já ficava mais forte, até finalmente
chegarmos no ice cliff. Para mim,
apesar da dificuldade e do cansaço (a falta
de oxigênio nessa altitude é grande!), foi uma das partes mais divertidas da
escalada. Passar pelo ice cliff exigiu mais técnica, além de mais energia. Mas
não era um trecho tão longo, e logo depois havia uma parte mais plana onde
paramos para descansar. Na sequência, havia uma longa subida, com uma
inclinação razoável, que para mim foi mais extenuante que o próprio ice cliff.
Fui devagar e finalmente cheguei no campo 2, que alívio! Havia batido meu
record de altitude, que era 6.800m (escalando o Aconcagua)! Estava a 7.200! Era
o record do Agnaldo também... nos demos os parabéns e já entramos nas barracas,
para começar as funções “domésticas”. O primeiro passo é pegar neve, em grandes
sacos. Depois, acender o fogareiro e começar a derreter a neve para termos
água. Essa função demora praticamente o tempo todo, até a hora de dormir. Isso
porque, enquanto derretemos a neve, também estamos consumindo a água que
acabamos de conseguir (uma das grandes preocupações é a hidratação). Além
disso, usamos essa água para preparar nosso jantar e também já deixamos as
garrafas cheias para que, na manhã seguinte, não seja preciso gastar tanto
tempo nessa atividade.
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| Lisete no ice cliff |
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| Phebe, Lisete e Heidi no C2 |
Nessa subida ao campo 2, praticamente metade de nosso grupo não
conseguiu chegar. Como estavam mais lentos, foram até o ice cliff e acabaram
voltando ao campo 1 para dormir. No dia seguinte, quando estávamos voltando ao
campo 1, encontramos alguns no caminho e acabamos descendo juntos para mais uma
noite no campo 1. Segundo nossos guias, essas pessoas tinham ainda condições de
fazer o cume, sem problemas. Claro, o ideal era ter chegado no campo 2 para
dormir, mas não chegar lá não era um impedimento para tentar o cume. Fiquei
mais tranquila com essa notícia... numa expedição tão longa, acabamos criando
laços com todos do grupo e torcemos para que todos consigam chegar no cume.
Apesar de saber que isso é difícil de
acontecer...
Na descida ao campo 1, me senti extremamente cansada. As pernas não
obedeciam muito as ordens do cérebro e dobravam de cansaço, o que acabava me fazendo
cair sentada várias vezes... Encontrei o Agnaldo, que também estava mais lento
que de costume e comentei isso com ele. E ele estava na mesma situação... muito
cansaço! Cheguei no campo 1 aliviada, mas ao mesmo tempo preocupada: se estava
me sentindo cansada aqui, será que teria condições de chegar no cume? Conversei
com Mike e com um de nossos sherpas sobre esse cansaço, e os dois me disseram a
mesma coisa: muitas vezes a noite no campo 2, por ser muito alta, não permite
que nosso corpo descanse o suficiente. Assim, o resultado é esse cansaço
acumulado no dia seguinte. Já a noite no campo 1 foi tranquila e no dia
seguinte já me sentia bem melhor. Descemos novamente para o base. Eu estava
novamente feliz por poder comer e dormir bem, mais uma vez.
Ficamos 4 dias no base, para descanso. Nos dois primeiros dias eu não
tinha vontade de fazer nada, apenas comer e dormir. Acho que todos estavam
assim, pois o acampamento estava mais silencioso e tranquilo que o normal. A
partir do terceiro dia já estava na rotina de sempre: café da manhã, bate papo
no sol, almoço, jogar cartas, descansar na barraca antes do jantar, jantar e
dormir. A previsão do tempo ainda falava sobre a tempestade, mas o tempo
continuava firme na montanha. Os guias e sherpas decidiram o dia de nossa
subida para o ciclo do cume: dia 28 de setembro. Confesso que tive aquele frio
na barriga... finalmente chegava esse momento que eu havia esperado tanto! É um
misto de apreensão, ansiedade e um certo medo, misturado com a vontade de ir e
fazer uma boa escalada. Me lembro que, numa noite após o jantar, o céu estava
completamente limpo e dava para ver milhões de estrelas. Fiquei lá olhando o
céu, num daqueles momentos mágicos em que se consegue simplesmente estar
presente, no momento presente. E me veio à cabeça tudo o que me havia trazido
para essa escalada. O meu treinamento, todas as escaladas anteriores, tudo... tive
uma certa “certeza” de que tudo estava bem, que tudo daria certo,
independentemente dos resultados. E fui dormir tranquila...
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| Jerri, Brenda, Mark, Lisete |
No dia 28, seguimos finalmente para o ciclo de cume. O cronograma era:
dormir no campo 1, dormir no campo 2, seguir para o campo 3 e chegar lá em
torno de 4pm, descansar já usando oxigênio, levantar às 10:30pm para começar o
ataque ao cume à meia-noite.
Durante a caminhada ao campo 1, numa das paradas de descanso, o Lui nos
disse que iria desistir. Eu e Agnaldo levamos um susto e tentamos conversar,
para que ele continuasse na escalada. Mas vimos que ele estava decidido, não
tinha muito o que falar. Eu estava super emocionada e triste, vi que os dois
também estavam... eu já havia imaginado o trio brasileiro no cume, e agora isso
não iria mais acontecer! Eu sabia, também, que esta escalada era importante
para ele... fiquei muito, muito chateada. O Lui foi conversar com os guias e
avisar de sua desistência. Não tinha nada que eu pudesse fazer, apenas desejar
a ele um bom retorno. Assim, fomos em direções opostas... ele voltou dali mesmo
ao campo base e nós começamos a subir a parte final, para chegar ao campo 1.
Foi um grande esforço me focar novamente na montanha e na escalada...
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| Heidi, Lisete e Brenda no caminho para C2 |
No campo 1, nessa noite, tive uma forte dor de cabeça. Foi um tanto
surpreendente, já que teoricamente eu já estava aclimatada a essa altitude. Mas
enfim, a lógica não funciona bem na montanha. Acabei acordando cansada mas
segui ao campo 2. Me senti muito mais cansada que no segundo ciclo e comecei a
ficar realmente preocupada. É inevitável surgir a dúvida: será que vou dar
conta??? Mas cheguei bem no campo 2. Começamos as funções de sempre, derreter a
neve, jantar, descansar. Durante a noite, novamente fortes dores de cabeça. Eu
não estava acreditando... meu estoque de analgésicos já estava quase acabando! Claro,
no dia seguinte eu estava me sentindo super fraca, cansada. Estava triste, pois
achei que eu não iria conseguir chegar no campo 3 e muito menos no cume. O
Agnaldo apareceu na minha barraca, conversamos. Depois o Mike veio conversar, e
me perguntou: vc acha que consegue ir para o campo 3? Fiquei com medo de que
ele pudesse me cortar do ataque ao cume, que ele me dissesse que eu teria que
descer. Respondi com a maior firmeza que pude naquela hora, que sim. Ele
respondeu que, caso eu não me sentisse bem e precisasse voltar, não haveria
problema. Isso eu sabia... o que eu não sabia era se teria condições de fazer o
ataque ao cume ou não... Pedi ao Mike para sair um pouco depois que o grupo,
ele concordou. O Phunuru, nosso sardar (chefe dos sherpas), iria seguir comigo.
Terminei de montar a mochila e finalmente começamos a caminhar. Eu
estava com a energia super baixa e segui bem devagar. Podia ver o grupo andando
na frente, mas não estava preocupada em alcançá-lo. Só me concentrava nos
passos e na respiração: um passo, 3 respiradas. Apesar de ser uma distância
curta e pouco ganho de altitude do campo 2 ao 3, a inclinação é pesada. Além
disso, estar a mais de 7.000m já é um esforço enorme para o corpo. Eu ia
devagar para poupar minha energia... não queria chegar exausta no campo 3, pois
isso definitivamente poderia me custar o cume.
Mais ou menos no meio do caminho, perguntei ao Phunuru quanto tempo
faltava para chegarmos. Ele pensou e disse: 3 horas e meia. Já era 2 da tarde,
o que significada chegar no campo 3 quase 6pm!!! Isso seria tarde demais, já
que eu teria muito pouco tempo para descanso... Comecei a avaliar friamente
minhas condições, que não eram nada boas. Percebi que não iria valer a pena e o
esforço de fazer o ataque ao cume, pois eu não teria a menor condição de
conseguir. Quando eu ia falar ao Phunuru que iria desistir, me deu um “click”
difícil de explicar... uma mistura de raiva comigo mesma e da situação, e
aquela sensação do “não vou desistir agora”. Pensei comigo “vou chegar no campo
3 nem que seja arrastada, e não vou demorar 3 horas e meia. Posso não chegar no
cume, mas vou chegar no campo 3”. Com isso na cabeça, comecei a andar bem mais
rápido do que estava andando até então. Claro, fiquei mais ofegante, mas
consegui colocar um ritmo na subida e fui. Finalmente, às 4:30h cheguei no
campo 3! Eu não conseguia acreditar, nem pensar direito... Vi o Mike andando na
minha direção e me dando os parabéns por ter conseguido.
O Agnaldo começou a
gritar da sua barraca: “cara, vc conseguiu, que animal!!!!”. Fiquei feliz
comigo mesma... Entrei na minha barraca (que iria dividir com Matt e Marc) e já
coloquei a máscara de oxigênio. Deitei, me agasalhei melhor e tentei descansar.
O Marc estava na função de derreter neve, o Matt estava organizando melhor a
barraca (com 3 pessoas fica bem apertado, principalmente porque as roupas –
macacão de pluma – e os sacos de dormir são muito volumosos). Preparamos algo
para o jantar (um tipo de comida liofilizada) e fomos dormir. Consegui dormir
bem, dentro das possibilidades.
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| Chegando no C3 |
Às 10:30pm o despertador tocou e começamos toda a função de nos prepararmos
para a saída. Macacão de pena de ganso, vestir a cadeirinha, derreter neve,
pegar alguma comida para levar, lanterna extra, preparar o cilindro de oxigênio
(pesa 7kg)... muitas e muitas funções, que naquela altitude, dentro de uma
barraca apertada, levou muito tempo para serem resolvidas. Finalmente depois de
comer algo, saí da barraca e comecei a andar. Era em torno de meia-noite.
Estava frio, mas com o macacão de pena de ganso eu estava até com um pouco de
calor (devia estar em torno de -25 graus, sem nenhum vento). Comecei a andar
devagar, pois ainda não sabia como meu corpo iria responder. Nisso, Matt e Marc
passaram por mim, com dois sherpas. Algumas pessoas de nosso grupo já estavam
caminhando. Eu ainda estava me ajeitando com tudo, principalmente com minha
máscara, que ficava escorregando um pouco. Passei por vários escaladores
chineses que estavam mais lentos, outros me passaram... finalmente consegui
colocar um ritmo na minha caminhada. Quando vi, estava numa longa fila, na
corda fixa. Devia ter umas 30 pessoas na minha frente. O engarrafamento era
devido ao trecho mais técnico de toda a escalada, a Yellow Band – um trecho
vertical de rocha, com mais ou menos 7 metros de altura. Na sequência havia uma
pequena travessia e logo uma outra parte vertical de neve e algumas rochas.
Tudo isso fazia com que os escaladores fossem mais devagar, formando esse
gargalo. Fiquei pacientemente na fila, olhando tudo ao meu redor. Caiu a ficha
que estava escalando um 8.000m, que tudo aquilo que um dia eu havia lido,
estava acontecendo! Até essa espera me pareceu mágica... eu estava vivenciando
um sonho! O céu estava estrelado mas com alguma névoa, a fila “luzinhas”
subindo a montanha - para mim tudo aquilo era muito bonito. Chegou finalmente
minha vez de passar a Yellow Band. Tentei alguns movimentos usando a piqueta e
o jumar na corda fixa, e vi que não daria certo. Acabei deixando ela de lado e
subi como se estivesse escalando em rocha mesmo (mas com botas triplas e
crampons, não é muito “confortável”). A rocha erá sólida, o que me deu
confiança de subir assim. Nem me pendurei na corda fixa para subir, como a
maioria vez. Minha opção foi boa, pois terminei esse trecho sem estar muito
ofegante. Entrei na travessia e logo estava no segundo trecho vertical, de neve.
Escalei usando a piqueta e rapidamente havia vencido a parte mais difícil da
escalada. E para mim, a mais bonita de todas... eu estava super focada, já não
pensava em quase nada. Comecei a andar num ritmo muito bom, me distanciei das
pessoas que estavam atrás de mim. De repente percebi que eu estava sozinha, sem
sherpa, guia, amigos da expedição. Foi uma sensação indescritível! Senti que
estava conectada à montanhas, estava lá de corpo e alma... tudo era lindo, eu
estava presente no momento presente. Naquele momento, eu não me lembrava mais
da existência de um cume. Eu ia subindo, sem me preocupar com nada... me sentia
super bem e forte. Via as outras pessoas subindo, muitos sem oxigênio, com
admiração... via nos rostos o tremendo esforço que estavam fazendo. Encontrei a
Heidi, minha companheira de barraca que estava escalando sem oxigênio.
Conversamos, ela disse que estava com muito frio e muito cansada. Dei para ela
uma bala (eu andava com um estoque nos bolsos! – Irivan, valeu pela dica!!!) e
continuei seguindo.
A noção de tempo é muito diferente nessa altitude. Eu não tenho na
memória essa idéia do “quanto tempo passou”. Me lembro apenas de, num certo
ponto, o céu estar mais claro. Parei para olhar e finalmente vi onde eu
estava... uma rampa mais ou menos inclinada, e atrás de mim o vale com inúmeras
montanhas, todas abaixo de mim. Pensei “nossa, estou
muito alto!”. Os picos
começaram a ficar iluminados, cada vez mais... parei para olhar, era
maravilhoso! Comecei novamente a andar, com a neve azul e o céu rosado pela luz
do amanhecer. Tudo era mágico, eu estava totalmente encantada com tudo o que
via... não me lembro de ver algo tão bonito na vida!
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| Dia de cume - nascer do sol |
De repente, como se tivesse saído desse mundo de encantamento, vi
algumas pessoas descendo e se aproximando de mim. Era o Mike, nosso guia. Ele
me viu, me deu um abraço e disse: “vc está aqui! Tive medo que não fosse
conseguir... Parabéns, vc está há 15 minutos do cume! Vc consesguiu!”.
Cumprimentei os escaladores que estavam com ele, e comecei a andar novamente. O
conceito “cume” havia ressurgido
em minha mente e agora era lá que eu queria
chegar. Mas eu estava feliz, muito feliz e não sentia cansaço nenhum. Vi então
o Agnaldo descendo. Que alegria, ele havia chegado no cume e estava bem! Nos
cumprimentamos, ele disse que estava muito frio em cima. Continuou sua descida
e eu, minha subida. Encontrei logo mais o Peter, nosso segundo guia, ainda
subindo. Seguimos juntos e finalmente, às 6am, chegamos no cume do Cho Oyu! De
lá é possível ver o Everest, que estava no meio de uma névoa fina e dourado
pelo sol nascendo. Não fiquei tão emocionada como achei que ficaria... eu
estava ainda nesse estado de magia, conectada a montanha. Tudo era divino...
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| Sombra do Cho Oyu |
Realmente no cume o frio estava bem mais intenso, o que fez com que a
bateria de minha
câmera descarregasse (apesar de todos os cuidados que tomei).
Peter tirou as fotos com sua câmera e ficamos lá talvez uns 15 ou 20 minutos
(tirei a mochila e a máscara, queria sentir os 8.201m!). O frio nos fez andar
novamente. Mochila nas costas, máscara no rosto e começamos a descida. Eu
estava andando rápido e tinha que esperar por ele, as vezes. Mas fomos bem até
o campo 3. Lá chegando, esperei o Matt e Marc empacotarem suas coisas para que
eu pudesse entrar na barraca. Estava já com muito calor por causa do macacão de
pena, queria me trocar. Coloquei uma roupa mais leve, consegui finalmente comer
alguma coisa e me hidratar. Os sherpas já estava desmontando o acampamento e
assim seguimos ao campo 2. Como ainda tinha oxigênio em meu cilindro, desci com
a máscara. No campo 2 tivemos mais tempo para descansar e comer. Estávamos
todos cansados e o corpo pedia uma parada. Alguns colocaram o isolante na neve
e deitaram ali mesmo, outros entraram na barraca para o descanso. A Heidi, que
conseguiu fazer o cume sem O2, estava na barraca – muito cansada pelo esforço
todo, e só dormia. Eu tb deitei e consegui dormir um pouco. Acordamos e depois
de comer alguns snacks, continuamos a descer. Apesar da distância, iríamos
dormir no campo 1. Não era boa idéia permanecer no campo 2, pois a essa
altitude (7.200m) nosso corpo não iria conseguir se recuperar do esforço do dia
de cume. Nossos guias nos disseram que, se ficássemos no 2, provavelmente no
dia seguinte estaríamos nos sentindo pior que antes. Assim, juntamos nossas
coisas e descemos. Agora eu sentia muito cansaço, as pernas de vez em quando
“falhavam” – dobravam sem querer e bum! caía sentada na neve. O Agnaldo disse
estar
também cansado, e assim fomos juntos. Foi uma loooonga descida, o campo 1
não chegava nunca!!! Mas, finalmente em torno das 5:30pm chegamos... que
alívio! Depois de um dia de praticamente 18 horas de escalada, só queria entrar
na barraca e dormir... os guias derreteram neve para todos e, depois de comer
meu jantar, dormi profundamente.
| Cume!!! |
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| Chegando no C2 |
No dia seguinte, continuamos a descida, finalmente para o campo base. Os
sherpas já haviam descido no dia anterior com mochilas gigantes (barracas do
campo 2 e 3, cilindros de oxigênio e outras coisas mais). Mas, para irmos mais
leves, deixamos várias coisas nas barracas do campo 1, para que os sherpas
carregassem para nós no dia seguinte.
Chegamos no campo base em torno de 1pm. A neve começava a cair, o céu
estava bem fechado. Era a tal tempestade, que havia chegado. Tivemos o tempo exato
para o ciclo do cume, que maravilha! Depois do almoço, eu só podia pensar em
dormir. Creio que, neste dia, foi basicamente o que fiz... comer e dormir! À
noite, tivemos um bolo preparado por nosso grande cozinheiro, além de
refrigerantes e cerveja. Comemoramos com todos da equipe... sherpas, cozinheiro
e guias, pessoas que foram fundamentais para nossa escalada.
Ficamos dois dias no campo base, para que a logística do retorno fosse
esquematizada. Foi ótimo, esses dias de descanso valeram a pena. Finalmente os
yaks começaram a chegar, e senti uma certa tristeza... a expedição tinha
terminado. Apesar de querer voltar para os luxos da civilização, me senti
triste. No dia 5 iniciamos o retorno. Seriam 2 dias até chegar em Katmandu. Mas
eu já sabia que meu coração havia ficado, definitivamente, nas montanhas.
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| No cume - Everest iluminado pelo sol nascente |
Gostaria de agradecer a todos que acompanharam nossa expedição, e que
torceram para nosso sucesso! Foram muitas as mensagens que recebi... não pude
responder a todos, mas saibam que adorei ler e saber da torcida, de coração!
Agradeço as pessoas que, de forma mais direta, fizeram com que esse
sonho fosse possível: Ricardo Lima (graaaande personal!), Viviane (querida
profa de Pilates), equipe da Academia Iron, Dr. Masseo (fundamental para os
cuidados com meus joelhos!).
Many many thanks ao Manoel Morgado, pelo incentivo e pelos equipos, e ao
Irivan Burda, por todas as dicas (as balas foram fundamentais!) e empréstimo
dos equipos.
Many many thanks aos guias Mike e Peter, a todos os nossos sherpas, Kaji
e seu assistente. A todos os amigos da expedição, que dividiram essa
experiência comigo.
Obrigada, de coração, ao grande parceiro Agnaldo. Valeu amigo,
conseguimos!!!!
Que venham as próximas...















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