Mudando de vida
MUDANDO DE VIDA
Aeroporto de Adis Abeba... Onde é isso
afinal? Esta é a capital da Etiópia. Acabamos de chegar, depois de alguns
longos vôos.
Fiquei por um tempo parada esperando nosso
check in, observando as pessoas que passavam. E que visão! Homens com trajes
que pareciam ter saído das Mil e Uma Noites, com turbantes e túnicas...
Mulheres negras, com roupas maravilhosamente estampadas, balançando os quadris
com todo o swing e classe. Mulheres com suas burcas, todas de preto, com aquele
ar pesado em volta delas... Negros altos e imponentes, com seus trajes variando
do branco até o dourado. Turistas, no meio daquela profusão de rostos e cores,
cansados de algum longo vôo.
O que mais me chamou a atenção, depois de
tudo isso, foi como o mundo é grande. Não em tamanho, mas sim em diversidade.
Esse é o tempero, é o que dá a graça, a beleza em todas as viagens. Talvez seja
a parte mais difícil de explicar, de colocar em palavras...
O INÍCIO
Há exatamente um ano atrás, iniciei uma
nova fase na minha vida. Foram vários inícios: novo relacionamento, novo
trabalho e, além de tudo, uma nova maneira de viver. Iria trabalhar como guia
de trekking, o que significava duas coisas muito importantes. Uma, eu
trabalharia “outdoor”, o que sempre foi uma paixão para mim. Outra consequência
dessa escolha, é que eu não moraria em lugar nenhum. É isso mesmo... Não teria
casa.
Para isso acontecer tive que abandonar a
minha vida convencional e “segura”. Sou engenheira mecânica de formação e
estava trabalhando numa empresa, dentro da minha área e com ótimas chances de
crescimento profissional dentro dela. Tinha meu apartamento, meu carro, minha
família morando na mesma cidade que eu, amigos. Uma vida muito confortável,
tranquila. Mas eu não estava feliz. Eu sempre tive uma certeza, de que devemos
trabalhar naquilo que gostamos. Se não existe essa afinidade com o que fazemos
na vida, tudo vira um peso.
Isso sempre foi algo importante para mim,
mas que a maioria das pessoas nunca entendeu bem. A pergunta que me faziam era:
não está feliz com o que? O parâmetro era que se eu tinha um emprego estável e
ganhava bem, eu devia estar feliz com minha vida. Mas isso não acontecia...
Resolvi que queria tentar uma nova vida,
buscando um trabalho que me trouxesse satisfação. Conversei com alguns amigos
que trabalham com atividade experiencial e resolvi que era com isso que eu
queria me envolver.
Por acaso, acabei encontrando um amigo que
não via há 12 anos e que também já havia mudado radicalmente de estilo de vida.
Depois de conversarmos por horas a fio, veio o convite: vamos trabalhar juntos
como guia de trekking? Uau... Refleti muito sobre a decisão a tomar, mas creio
que sempre soube que iria. Afinal, o máximo que poderia acontecer era não dar
certo e ter que voltar.
Assim, a cada mês estou em um país
diferente, guiando clientes por trilhas em lugares remotos nas montanhas ou
então estou de férias – em geral, também nas montanhas. Eu e meu namorado
vivemos basicamente em hotéis (quando estamos nas cidades) ou acampados (quando
estamos nas trilhas). Nepal, Rússia, Mongólia, Marrocos, Tanzânia, Argentina –
são alguns dos países onde trabalhamos.
A VIAGEM
Em geral as pessoas pensam que estou em
férias “eternas”. O que não é verdade. Meu trabalho é como qualquer outro, com
dias bons e dias nem tão bons assim. Trabalho do momento que acordo até a hora
em que vou dormir. A grande diferença é que gosto do que faço. Gosto de andar o
dia inteiro. Claro, se o dia está com o céu azul e a temperatura amena, ótimo.
Mas, se estiver nevando... bom, para mim também tem sua beleza. Gosto de estar
com os clientes e ver como cada um lida com os desafios de cada dia. Como vão
crescendo e aprendendo sobre si mesmos.
Não ter casa foi um grande desafio. É o
tipo de conceito tão enraizado que é difícil imaginar não tê-lo. Durante as
viagens, passo por inúmeras lojinhas com milhares de coisas lindas – dá vontade
de comprar tudo! Mas daí vem a pergunta: vou colocar onde?
A princípio não me sentia a vontade em
hotéis. Quando podíamos ficar em apart hotel, com uma cozinha e uma varanda,
era como estar em casa. Nas trilhas, onde geralmente acampamos, me sinto bem.
Não me incomoda o fato de não dormir em cama e ter apenas um colchonete
inflável e um saco de dormir, ou de ter apenas as roupas e coisas que possamos
carregar nas mochilas. Sim, sinto falta de um bom banho quente e de ter um
banheiro bacana... Mas sei que quando acaba a trilha vamos para uma cidade e
ficamos bem instalados em um hotel. Com banheiro!
Claro, essa vida tem o seu preço. Sinto
falta da minha família e dos meus amigos. Muitas vezes recebo os convites para
o aniversário de um, casamento de outro. Mas estou longe, sem a menor chance de
ir. Acho que esse é o maior preço a pagar pela opção de fiz. Por outro lado, valorizo
muito mais essas pessoas queridas e quando estou por perto tento ver todo
mundo.
Mas creio que a grande “viagem” é essa
oportunidade que tenho de estar em países, em sua maioria, remotos e com sua
cultura preservada. Poder estar no Nepal, vivenciando uma cultura hindu /
budista e na sequência cair de pára-quedas no Marrocos, país muçulmano. É
chegar na Tanzânia, África, depois de passar alguns meses na Ásia, e sentir o
calor humano, os sorrisos fáceis e a musicalidade do “swahili”, o idioma local.
É aceitar que somos todos diferentes, cada um com seu estilo de vida, e que,
tirando alguns extremismos, não existe a maneira “certa” ou “errada”. Existem
culturas diferentes.
Comentários
Postar um comentário