As muitas montanhas da vida
Às vezes somos inundados por informações que se transformam em emoções.
Neste contexto, me preparo física e emocionalmente para um grande
desafio em minha vida, escalar uma montanha com mais de 8.000m de altitude, o
Cho Oyu. Essas montanhas, chamadas de “eighthounsanders”, se encontram todas no
Himalaya e existem apenas 14. O mais alto e famoso, claro, Mt Everest com seus
8.850m. O Cho Oyu é o sexto pico mais alto do mundo, com 8.201m. É considerado
o menos complicado tecnicamente e muitos montanhistas usam essa montanha para
“debutar” no mundo dos 8.000m.
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| Escalada do Cho Oyu |
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| Escalada do cho Oyu |
Claro que a primeira coisa em que pensamos é no preparo físico. São
horas, todos os dias, dedicadas a por o corpo em sua melhor forma física. Isso
exige muita, muita força de vontade, disciplina, esforço e até criatividade...
“como posso fortalecer aquele músculo do antebraço que vou usar na parte
técnica? Aaaaahhh, vou fazer barra usando duas cordas na vertical!”.
O lado emocional da escalada é muito menos abordado, mas acho que é tão
importante quanto. Claro que todo montanhista que vai para uma escalada de uma
montanha de 8.000m sabe o que está fazendo e sabe que existe um risco de vida
envolvido. Mas sempre parece que essa realidade fica longe, a quilômetros de
distância. De fato, quando me inscrevi na expedição, vi as fotos da escalada e
vídeos na internet, achei tudo maravilhoso e me visualizei no cume, num dia
perfeito de sol. Já fiquei naquela ansiedade do tipo “putz, é só em agosto!”.
Então, a realidade começou a aparecer, quando recebi os muitos
formulários para preencher. Formulários médicos, contatos de familiares para
serem avisados caso aconteça algo, seguro, contrato de risco... Mas o mais punk
foi, sem dúvida, o “body disposal form”, onde vc tem que preencher o que quer
que seja feito com seu corpo no caso da morte na escalada. Incrível o choque
que isso provoca... ter que pensar, seriamente, na morte.
O budismo e outras filosofias orientais já deixam muito claro o conceito
de Impermanência, isto é, nada é permanente. Nossa vida está dentro desse
pacote. Mas principalmente nós, ocidentais, parece que nem pensamos a
respeito... vivemos nossos dias como se fôssemos viver ad eternum... Na
verdade, sabemos que não é bem assim.
Comecei a pensar seriamente sobre o assunto, da Impermanência. A
conclusão é até simples: viver da melhor maneira possível o momento, a vida.
Nem que, para chegar a isso, seja preciso alguma mudança que seja dolorosa, mas
o turbilhão provocado por ela vai passar e será para melhor. Como tomar
consciência desse fato já mudou algumas atitudes em minha vida! Coisinhas
simples, como passar o Dia das Mães com minha mãe, irmã (acabou de ser mamãe
tb!) e cunhado em São Paulo, dar mais atenção aos amigos, perdoar uns tantos
outros, enfim... muitas coisas e atitudes bacanas, já que na realidade hoje
posso simplesmente atravessar a rua e um doido não me respeitar. Nem é preciso
falar do Cho Oyu...
Todas essas reflexões podem levar a atitudes positivas, como citei, ou negativas
– ficar com medo de tudo e parar no tempo. Mas se a gente não sair e viver, de
que vale tudo isso?
Esta semana tive duas notícias e cada uma me emocionou de maneiras
diferentes. A primeira, maravilhosa, de que a Karina Oliani chegou ao cume do
Mt Everest e voltou em segurança. Foi um sonho que ela teve, conseguiu
transformar em realidade, fazendo o melhor que pode em cada situação. Isso é
bacana demais... Senti aquele uhuuuuu no peito e isso me pilhou ainda mais para
seguir em meus treinos para o Cho Oyu. Só pensava “nossa, daqui a pouco sou
eu”! A outra não tão boa, que o montanhista Parofes que, apesar de não conhecer
pessoalmente (apenas virtualmente) e por quem tenho a maior simpatia, está com leucemia.
Sempre acho incrível o poder que o ser humano tem de lutar nas adversidades,
com garra, determinação. Me fez novamente pensar na vida, na Impermanência de
tudo e como nossa atitude poder ser determinante. Troquei alguns e-mails, ele
me escrevendo do hospital (é mole?) e mantendo a mesma atitude positiva.
Sim, a vida é curta... O ponto é que não sabemos o quanto ela vai durar.
Assim, vamos viver! Repensar a vida, ver o que é um peso e o que nos traz
satisfação. O que for um peso, pensar em como solucionar o problema... sem
arrumar bilhões de desculpas que travem qualquer iniciativa. Outra coisa, sabe
aquela estória do amor incondicional (que muita gente acha breguinha e que é
coisa de livro de auto-ajuda)? Isso é real, e devemos usar com tudo e todos...
desde a natureza, seu vizinho e vc mesmo. Fazer pequenos gestos sem esperar
nada em troca (o que no yoga chamamos de “ação desapegada da ação”, isto é, sem
esperar por resultados diretos a vc) tb fazem parte... Doar brinquedos, roupas,
sangue, órgãos, medula. Penso no amigo Parofes e tantas outras pessoas que
podem ser ajudadas a partir de um gesto desses...
Por isso, saia do computador e vá passear! Faça o que quer que vc
realmente goste, agora, pra sentir esse gostinho. Como disse esse meu amigo
montanhista, fique menos no facebook e mais na montanha!
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| Lisete no cume do Kilimanjaro |
Para fechar com chave de ouro minhas elocubrações mentais, recebi de uma
amiga-irmã desta vida este vídeo, que me fez pensar em mais uma coisinha, tb já
sabida dos orientais (é, os caras são bons...): todo o Universo está
emaranhado, como numa rede. Todos os pontos estão conectados, nós criamos essas
conexões. Mas estão em equilíbrio. E basta uma pena que seja, para que essas
conexões se desfaçam.
Sonhe! São os sonhos e sua concretização que nos dão alegria de viver.
Grande abraço a todos!



Momento ímpar este que vc está vivendo agora na preparação e planejamento deste novo desafio! Torcendo pelo teu sucesso na escalada do Cho Oyu!
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